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04 de dezembro de 2025
Entre o abandono, o delírio e a falha do cuidado: uma leitura psicanalítica sobre a morte de Gerson

A morte de Gerson de Melo Machado, conhecido como “Vaqueirinho”, aos 19 anos, em 30 de novembro de 2025, após invadir a jaula de uma leoa no zoológico de João Pessoa, não pode ser compreendida apenas como um acontecimento trágico e isolado. Trata-se de uma história que revela, de forma dolorosa, as marcas do abandono, da fragilidade dos vínculos primários, da falha no cuidado em saúde mental e da negligência das instituições que deveriam sustentar a vida psíquica de um sujeito desde seus primeiros anos. Diagnosticado ainda na infância com esquizofrenia, Gerson acumulou 16 passagens pela polícia, sendo 10 delas quando ainda era menor de idade. Sua mãe e sua avó materna também possuíam o mesmo diagnóstico, o que aponta para uma herança psíquica marcada pelo sofrimento e pela desorganização. No entanto, mais do que a presença do adoecimento psíquico em sua linhagem familiar, o que se evidencia é a ausência de uma rede contínua de cuidado, tanto no âmbito familiar quanto no campo das políticas públicas de saúde mental.


Segundo relatos, Gerson dizia à assistente social que o acompanhava que seu maior sonho era “dominar um leão”. Esse desejo, que pode ser escutado simultaneamente em sua dimensão simbólica e delirante, culminou em um ato extremo que terminou com sua própria morte. Diante disso, a psicanálise nos convida a deslocar o olhar do ato para as condições de constituição subjetiva que o antecedem. Winnicott afirma que “o ambiente suficientemente bom é aquele que se adapta ativamente às necessidades do bebê”, permitindo que a continuidade do ser seja preservada. Quando essa adaptação falha de modo grave e repetido, especialmente nos períodos iniciais do desenvolvimento, instaura-se uma ruptura na integração do ego. Winnicott também afirma que “a falha ambiental suficientemente grave pode produzir uma organização defensiva de tipo psicótico”. No caso de Gerson, observa-se a presença constante dessa falha ambiental desde muito cedo, tanto no campo familiar quanto posteriormente no campo institucional.


A sobreposição de fragilidades se agrava quando consideramos a condição psíquica da própria mãe e da avó, ambas diagnosticadas com esquizofrenia, o que compromete profundamente a possibilidade de exercício estável da função materna enquanto sustentação emocional, holding e organização do mundo externo. Assim, aquilo que deveria operar como base para a constituição do self transformou-se em experiência de desamparo. John Bowlby, ao desenvolver a Teoria do Apego, sustenta que “a necessidade de estabelecer vínculos afetivos é tão primária quanto a necessidade de alimento”. Para o autor, é a partir de uma base segura que a criança desenvolve sentimentos de confiança, autonomia e capacidade de explorar o mundo. Quando essa base falha, forma-se o apego inseguro ou desorganizado, no qual o outro deixa de ser fonte de proteção e passa a ser vivenciado como ausência, rejeição ou ameaça.


Gerson não apenas perdeu o amparo familiar, mas foi progressivamente abandonado pelas instituições que deveriam garantir sua proteção e tratamento. Sem continuidade de acompanhamento psiquiátrico, sem estabilidade no vínculo com as redes de cuidado e sem amparo social efetivo, ele foi sendo lançado às margens da vida social. Bowlby já alertava que “experiências prolongadas de separação na infância podem ter efeitos profundos e duradouros sobre a personalidade”. Nesse sentido, o Estado, ao falhar em sua função de cuidado substitutivo, também participa da produção do desamparo. O desejo de “dominar um leão” pode ser compreendido, portanto, como uma tentativa imaginária de dominar aquilo que internamente o devastava: o delírio, a angústia sem nome, a fragmentação psíquica e o terror diante da ausência de sustentação. Onde faltou um outro capaz de conter a angústia, ele tentou, tragicamente, enfrentar o indomável com o próprio corpo.


Nise da Silveira, ao criticar o modelo manicomial e a lógica da exclusão, afirmava que “a emoção, o afeto e a liberdade são elementos fundamentais no tratamento da psicose”. Sua prática revolucionou a psiquiatria brasileira ao romper com métodos violentos e ao introduzir a arte, o vínculo e a escuta como formas de reconstrução subjetiva. Para Nise, o sujeito psicótico não deveria ser reduzido a um diagnóstico, mas reconhecido em sua singularidade. Sua ética se opõe radicalmente ao destino que foi imposto a Gerson: o da medicalização descontínua, da criminalização e, por fim, do abandono absoluto.


A trajetória de Gerson evidencia como a loucura ainda é tratada socialmente como algo a ser contido, silenciado ou eliminado, e não como sofrimento que demanda cuidado. Ele foi visto como infrator, como ameaça, como problema social, mas raramente como sujeito em sofrimento psíquico grave. Sua morte não é apenas fruto de um ato impulsivo ou de um delírio isolado, mas consequência de uma cadeia contínua de falhas nos laços de cuidado.


A tragédia de Gerson não é apenas individual: ela é coletiva, política e ética. Como nos lembram Winnicott, Bowlby e Nise da Silveira, ninguém se constitui sozinho. Sem vínculo, sem sustentação, sem continuidade de cuidados e sem reconhecimento da própria humanidade, o sujeito adoece e, em casos extremos, sucumbe. Sua história nos convoca a repensar, com urgência, a forma como estamos cuidando daqueles que mais precisam de amparo, sobretudo quando a vida psíquica já nasce atravessada pela fragilidade. Antes de enfrentar a leoa, Gerson já vinha sendo devorado, há muito tempo, pela ausência de um outro que pudesse sustentá-lo na vida.